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domingo, 18 de maio de 2014

FORTE CHEIRO DE MOFO NO AR

  Públio José – jornalista



Nessa época do ano é comum o surgimento do mofo. Por onde você anda, ele se faz presente, afetando narizes e impregnando as roupas de manchas acinzentadas e bolorentas. O mofo aparece em razão da combinação do ar saturado de umidade, pela ocorrência da chuva, com o calor inerente ao clima tropical natalense. Para as donas de casa traz bastante preocupação. As crianças são logo acometidas de longas seções de espirros e o conseqüente aparecimento de corrimento nasal, gripes, garganta inflamada, etc, etc. Além de doentio, o mofo tem uma característica interessante: ele é anti-social. Gosta de sombras, de lugares não visitados, de enclaves pouco freqüentados, fechados, obscuros e inacessíveis. O mofo não gosta de locais abertos, claros, limpos, arejados, renovados. Sintomaticamente, a roupa clara não lhe é apetecível. Prefere os tecidos escuros, de pouco uso, entocados há bastante tempo.
                    
Entretanto, o mofo não mata. Eu, pelo menos, nunca fui a um enterro de alguém que tenha sucumbido vítima do mofo. Ele enche o saco das donas de casa diante de roupas imprestáveis para o uso, impregna ambientes com seu odor característico, causa crises de sinusite, olhos lacrimejantes, nariz entupido, dor de cabeça, deixa você com um jeitão caído, entristecido, arrasa seu humor... Mas, matar não. Isso não ele não faz. Outro detalhe evidente no mofo é que ele não escolhe classes sociais. Sua ocorrência se registra de maneira universal, atingindo a todos, em todos os lugares. Logicamente que os mais abastados têm mais e melhores elementos para combatê-lo do que os menos favorecidos. Enfim, metaforicamente, há uma semelhança incrível entre este período de tempo – no qual o ar e os ambientes estão carregados de mofo – e o atual momento político vivido pelo Brasil.
                     
Ambos não matam. Mas causam um prejuízo considerável. Semelhantemente ao mofo, a corrupção é um silencioso elemento nocivo às engrenagens políticas, administrativas e institucionais. A corrupção não gosta de ambientes abertos, da luz clara e ofuscante do debate de idéias. De ambientes visitados por gestores detentores dos princípios da honestidade, da seriedade, das boas práticas administrativas. Como o mofo, a corrupção impera em lugares obscuros, vedados ao exercício investigativo, auditorial, dos órgãos destinados ao seu combate. Da mesma forma que o mofo, a corrupção não resiste a uma boa investigação. Quando uma dona de casa abre um armário ou joga à luz do sol uma roupa impregnada de mofo, seu arsenal doentio desaparece rapidamente sob o poder antisséptico, regenerador e crestador dos raios solares.
                      
Num processo inicial, o mofo e a corrupção não matam. Mas suas conseqüências, além de imprevisíveis, podem desaguar num processo de morte. Da congestão nasal dos primeiros momentos, o mofo pode progredir para distúrbios gravíssimos. Sem o tratamento adequado, seu desenvolvimento descontrolado, após se estabelecer no organismo humano, pode gerar até óbitos, pela ocorrência de distúrbios pulmonares e de outra natureza. Do mesmo modo, nas engrenagens públicas, a corrupção pode causar infecções tremendamente danosas e abalos políticos de enormes proporções. As donas de casa aprenderam a combater o mofo e têm contra ele armas bastante eficazes. Por seu turno, o organismo estatal precisa aprender a combater a corrupção e encontrar rapidamente remédios eficazes contra a sua proliferação. Senão, atchim, atchim, atchim... Cadê o descongestionante!!!?

domingo, 16 de março de 2014

ONDE ESTÃO OS CARTISTAS?



Públio José – jornalista

                                     
                   
A Inglaterra viveu um período extraordinário de sua existência entre os séculos XVIII e XIX, no qual a eclosão de fenômenos sociais e políticos reverberaram pelo mundo, mudando a face de sistemas políticos e inaugurando a fase pré Revolução Industrial – na qual as primeiras invenções deram as caras e lançaram os países numa incomum onda de competição. A Inglaterra nadava em dinheiro, fruto de um intenso comércio exterior tornado realidade pela excelência de sua estrutura naval e dos pesados encargos financeiros que impunha aos povos de suas inúmeras colônias. Era o primeiro país a se capacitar ao título de potência mundial de então, detentora, além do mais, de abundantes reservas de ferro, carvão mineral, alumínio, forte sistema bancário – e presença planetária. Daí se dizer, com orgulho em solo inglês, e também pelo resto do mundo, que no império de Sua Majestade o sol nunca se punha.
                        
Vem desse período, ainda anterior à Revolução Industrial, um movimento chamado luddismo, surgido do descontrole de Ned Ludd, um tecelão que, em momento de aguda revolta pelas desumanas condições de trabalho impostas aos trabalhadores britânicos, arrebenta a máquina na qual fiava, despedaçando-a com uma marreta. O luddismo se espalhou velozmente pelos centros industriais ingleses e marcou com suas cenas de violência e quebra-quebra os primeiro momentos do que mais tarde viria a ser a Revolução Industrial. Um pouco adiante, já século XIX, outro movimento defende melhores condições de trabalho para o operário inglês, porém de conteúdo e atuação diferentes. Fundado por William Lovett, este movimento foi denominado de cartismo em razão da publicação de uma carta enviada ao Parlamento na qual eram expostos motivos e argumentos da luta em prol da classe trabalhadora.
                        
O cartismo buscou desde o início o diálogo com o Parlamento e com os demais setores representativos da sociedade inglesa, procurando respeitar as regras e normas vigentes até então, porém tentando modificá-las na defesa dos direitos da mão de obra que dava existência à potência econômica na qual a Inglaterra se transformara. Analisando-se o cartismo, vê-se em William Lovett um primor de liderança surgida em meio a um conturbado momento de luta de classes. Nele, a regra de ouro era a busca do caminho do diálogo e respeito às leis para atingir os objetivos que almejava. Não à toa se vê hoje o grau de maturidade alcançado pela democracia inglesa, na qual uma monarquia convive em harmonia com um parlamento plebeu, um primeiro ministro que realmente é quem manda – e uma Câmara (a dos Lordes) que não delibera mais nada de importante na vida dos súditos de Sua Majestade.
                        
Esse traço marcante, inerente a certas lideranças – de atingir objetivos pelas vias institucionais – tem feito a diferença na vida das nações. Agora mesmo, na crise da Ucrânia, vê-se um líder russo que invade outro país utilizando soldados mascarados, carros de combate e tanques sem placas de identificação, comportamento mais afeto a mafiosos tresloucados do que ao mandatário de uma nação do porte da Rússia. Nesse quesito, Brasil, Venezuela e tantos outros são exemplos da entronização de capatazes que espezinham leis, valores e instituições para alcance de seus interesses – custe o que custar. Na história das nações democráticas líderes de visão cartista deixaram sua marca – e fincaram nelas a bandeira do humanismo, da civilidade. Por aqui, pelo que se vê, são raros. Quase inexistentes. Ou existirão? Se assim for, onde estão os nossos cartistas? Olho no microscópio, cara pálida. No microscópio...        

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

VOTO NA IMPRENSA PARA VEREADOR, DEPUTADO, SENADOR E PRESIDENTE NO BRASIL



Por Flávio Rezende*



Em Natal, a bela cidade onde moro, as autoridades interditaram um importante viaduto e a decisão já passa de um ano, causando muitos transtornos para várias pessoas que necessitam dele em seus deslocamentos diários.

        
 Laudos e mais laudos são exigidos, desculpas amarelas são dadas, dinheiro público escoa pela vala da incompetência, serviços começam e param e o tempo passa e o viaduto não é liberado para usufruto da população em geral.

         
Diante de tudo isso, um determinado veículo de comunicação não dá moleza e estampa o assunto constantemente, apressando a solução e encurtando a eternidade da interdição.

         
Quando esse equipamento for um dia posto à disposição da coletividade, este veículo terá tido importante papel em todo o processo, pois, não sendo ele um eterno cobrador, só Deus sabe se esse viaduto seria reaberto um dia novamente.

         
A imprensa, regra quase geral, tem sido o mais importante vereador, deputado, senador e presidente neste Brasil de problemas diversos, valendo muito mais que casas legislativas de todos os tipos e investigando melhor que todas as polícias juntas.

         
É recorrendo a imprensa que o cidadão comum resolve o buraco em sua rua, a falta de água, vê o crime ser solucionado, a injustiça corrigida e descobre as falcatruas em geral.

         
Deixando de lado questões ideológicas, quando a imprensa joga luz sob determinados assuntos, eles como num passe de mágica mobilizam autoridades e as soluções surgem instantaneamente.

         
Diante do exposto e julgando praticamente pífia a atuação da maior parte dos parlamentos em todos os níveis, repletos de obesos consumidores de recursos públicos em tenebrosas transações, sugiro uma drástica redução no número destes representantes, elegendo a imprensa num regime de gestão compartilhada, para a solução das agruras que nos afligem.

         
Um conselho formado por jornalistas, donos dos veículos de comunicação, autoridades e políticos, definiriam quais problemas seriam atacados ai, a imprensa, jogaria luz sobre o assunto promovendo com seu eficaz poder de mobilização, a solução quase imediata.

         
Na situação em que estamos, com muita lentidão nas soluções, baderna, quebra-quebra, criminalidade astronômica, corrupção epidêmica e PAC em ritmo de cágado, ficamos tão desorientados que somos tentados a buscar doidices, como esta, para ver se num surto, acendemos a luz do manicômio.


        

        * É escritor, jornalista e ativista social em Natal/RN (escritorflaviorezende@gmail.com)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O PREGO, O MARTELO, A DOR

   Públio José – jornalista

   
De repente, surge a necessidade de algum objeto ser fixado na parede. Começa, então, a busca pelo prego e, em conseqüência, pelo martelo. Encontrados todos os elementos para suprir a necessidade da fixação, inicia-se a grande operação: bater na cabeça do prego para que o tal objeto seja fixado. Aí tem início um grande problema. Estará o pregador do prego devidamente capacitado a executar este trabalho? Não seria melhor convocar alguém do ramo ou, no mínimo, instruir-se melhor para bater no prego, com o martelo, para atingir o objetivo desejado? Dilema, grande dilema! Em razão do tempo, da necessidade urgente da fixação do objeto, da inexistência de alguém mais capacitado para executar o ofício, decide-se, então, pela grande empreitada. O prego é instalado no lugar correto, o martelo é devidamente levantado para desfecho do golpe – que se pretende certeiro. E, e, e, e...

                        
É chegado o momento do encontro fatal entre a falta de capacitação para execução do trabalho e o corajoso gesto de se fazer o que não se sabe fazer. O golpe tão milimetricamente planejado erra o alvo e acerta com toda força o dedo do episódico e infeliz pregador de prego. A dor é lancinante. Na seqüência, a carne, machucada pela falta de destreza, abre-se pela força do golpe. O sangue, com seu odor e cor característicos, aparece triunfante, reclamando sua parte no negócio. Liberto dos limites que lhe são impostos pela pele e pelos tecidos goteja abundantemente para atestar que chegou ao cenário como conseqüência de um gesto mal executado. Sangue é vida. E, no episódio, um pouco da vida do nosso personagem se esvai sem apelação. Mas, interessante, daí não passa. Uma martelada no dedo não causa morte, embora machuque e até ocasione lágrimas, incômodos – e muita dor.

                        
Essa experiência, guardadas as devidas particularidades, é semelhante ao atual momento vivido pelo Brasil. O Brasil pretende fixar na sua parede social, econômica, jurídica, política, eleitoral, a democracia, a ética, a moralidade, o respeito entre os poderes constituídos, o combate à corrução, uma melhor distribuição de renda, mas errou o alvo e acertou o dedo. A pancada não deu para matar, mas originou uma dor de profundas conseqüências e a perda de algum sangue – parte do patrimônio físico e moral que deveria preservar. Entre tantas marteladas brasileiras que erraram o alvo, e acertaram o dedo, destaque todo especial para a entronização, entre outros, de Renan Calheiros como liderança política. A dor, a vergonha, a impotência - lágrimas morais derramadas de difícil cicratização, mesmo que não tenham o condão de levar o país para a UTI dos propensos à morte.

                        
Os sucessivos escândalos ocorridos no Congresso, a debilidade da matriz energética, o analfabetismo, a crônica situação de penúria que aflige a educação, a saúde e a segurança, são marteladas que machucam, que agridem a alma nacional, e impingem aos mais carentes e necessitados a condição da carne dilacerada pela conseqüência das políticas públicas mal conduzidas e mal executadas. Já está na hora do martelo brasileiro passar a ser manejado com competência e seriedade. Para que os pregos nacionais sejam fixados nos lugares corretos, trazendo, com isso, a solução de nossos problemas e não a eternização de carnes dilaceradas e sangue jorrado impunemente. Enquanto isso, a continuidade de Renan na presidência do Senado é como se à carne machucada fosse adicionado a cada dia um elemento nocivo para impedir-lhe a cicratização. Quem vai bater o martelo? Certeiramente, é claro...          

 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O BOIMANSISMO DO ELEITOR


Muito se comenta no Brasil a respeito do alheamento do eleitor sobre as grandes questões, os grandes temas que envolvem a vida nacional. Pior: pesquisas, enquetes, levantamentos os mais diversos sempre afunilam para uma realidade inquestionável: a maioria do eleitorado nem se lembra em quem votou na última eleição. Além de comprovar o alheamento, a falta de memória do eleitor nos períodos posteriores às eleições, tal fato demonstra também a baixa qualidade do debate político e o desempenho pífio dos parlamentares no sentido de captar e manter acesa a atenção do eleitorado para as questões de importância ao dia a dia de todos. Seções sonolentas, propostas infantis, descabidas, dissociadas do interesse geral, chancelam e constroem o afastamento do brasileiro de tudo (ou quase tudo) do mundo político – e levam-no, além do mais, ao esquecimento impatriótico em quem votou no pleito passado.
                        
Na qualidade de pessoas alçadas à condição de representantes, de porta vozes do povo (normalmente mais capacitadas, mais informadas a respeito de leis, projetos e tudo que envolve a rotina parlamentar), cabe muito mais aos políticos fazer por onde haja interesse da população do que se aproveitar da folclórica expressão “o brasileiro tem memória curta”. Ou será de interesse dos políticos, com raras exceções, manter o povo no desconhecimento do que se passa nos espaços parlamentares? Nisso aí talvez esteja a resposta a essa grande chaga nacional. Ou, quem sabe, nesse ponto, resida um grande impasse... Afinal, até hoje, não está comprovado se a pasmaceira da cena política brasileira está mais ligada ao baixo desempenho dos parlamentares ou à secular indisposição do brasileiro em participar da discussão de temas relevantes, muitos deles imprescindíveis. Nesse sentido, dois exemplos são gritantes.
                       
Há quanto tempo rolam no Congresso as reformas política e tributária? E o brasileiro nem, nem. Serão, por acaso, assuntos desimportantes? Ou, quem sabe, tenha se apossado do brasileiro – por conviver longo tempo com uma realidade política que quase não lhe chama a atenção – a síndrome do boi manso, o boimansismo? Assim dito do fenômeno que registra as características de alguém que tem força e poder para alterar circunstâncias, mas se entrega a uma inércia, a um imobilismo de intrincada compreensão. Só assim se explica o comportamento do eleitor brasileiro diante de um contexto que lhe é sempre tão adverso – e tão necessitado, portanto, de sua adesão ao debate. E o boi manso? De jovem garrote agressivo, verdadeira força bruta, impetuosa, transforma-se em pouco tempo em dócil animal quando lhe jogam ao pescoço a canga da campinadeira ou a estrovenga do carro de boi.
E as manifestações de meados do ano passado, quando milhares de pessoas saíram às ruas para protestar por uma infinidade de mazelas praticadas pelos políticos em geral? Muita coisa se escreveu a respeito das manifestações, muita análise foi produzida, mas em um ponto todos concordam: os protestos pecaram pela falta de objetividade, pela profusão infrutífera de questões abordadas. Também aí um comportamento típico de boi manso. Quando se afoba, o boi manso solta coices e chifradas pra todo lado. Infrutiferamente. Falta-lhe foco, visão, objetivo definido para atacar. Passada a afobação, volta a ser o mesmo boi manso de sempre. Forte, robusto, poderoso, porém inerte, incapaz de defender seus interesses, quedado diante da esperteza do oponente. Das massivas manifestações do ano passado pouca coisa de concreto restou. A não ser o mugir do boi: mom, mom, moooooooommmmmmm...      

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

UM ESTRANHO CORTEJO

Públio José – jornalista







 Há uma passagem na Bíblia, no livro de Marcos, (2. 3.) que nos mostra uma cena bastante estranha. Jesus chegara a Cafarnaum, vindo da Galiléia, e logo a notícia correu de que Ele chegara à cidade. Sua fama já era bastante conhecida. Por onde andava grandes multidões se apertavam para vê-lo e ouvi-lo. O versículo 3 narra, então, que “alguns foram ter com Ele, conduzindo um paralítico, levado por quatro homens”. Pelo que se vê, uma pequena multidão se aglomerara em torno de um paralítico, sendo que destes todos quatro foram escolhidos para levar o paralítico a Jesus. O paralítico foi carregado em sua própria cama, certamente em razão de dificuldades de movê-lo até Jesus de outra maneira, ou pelas dificuldades financeiras de contratar outro tipo de transporte. O que se depreende do episódio é que o paralítico não era um qualquer – uma vez que muitos se juntaram para socorrê-lo.


Assim, fica configurado o inusitado da cena. Um bando de homens, (às mulheres não era permitida tal empreitada, em função da cultura e hábitos judaicos) carregando uma cama, desfila com um paralítico pelas ruas da cidade em busca de solução para suas dores. Da cena se extrai, no mínimo, uma alta demonstração de solidariedade, pois é muito difícil conciliar tempo e interesses de um bom número de pessoas dispostas a desfilar, pelas ruas de uma cidade, carregando um paralítico numa cama. A cena, olhando-se de fora, teria também algo de ridículo, de insólito, de cômico. Mesmo assim, temos que admitir o forte fascínio que o doente exercia sobre as pessoas a ponto de convencê-las a se irmanarem com ele na incomum tarefa. Embora pobre, houve argumentos da parte dele que sensibilizaram outros homens a ajudá-lo na busca da solução para os seus problemas.


Do episódio podemos tirar várias lições. A principal delas é que aquele homem jamais se entregou à sua desdita. Podemos concluir isso pelo simples fato de que, ao primeiro sinal da presença de Jesus na cidade, ele se movimentou para procurar ajuda. Pelo pronto atendimento dos amigos ao seu chamado, podemos concluir também que em redor de si havia sempre trânsito de pessoas. Isso demonstra que, apesar de suas dores, de sua vergonha, da sua incapacidade física, ele tinha um comportamento que gerava nas pessoas afeição, carinho, afinidade – irmandade até. Afinal, como narra o texto bíblico, aquele grupo de companheiros topou uma empreitada nada fácil. Ao chegarem na casa onde Jesus atendia o povo se depararam com uma difícil realidade: não havia como entrar na casa; não havia como chegar a Jesus, pois o ambiente, de tão freqüentado, estava completamente tomado.  


Mesmo assim eles não desistiram. Acredito que tenham feito uma pequena conferência em torno da dificuldade. “E agora, como vamos fazer?” Um deles, certamente o mais afoito, sugeriu a cena que se perpetua até os dias de hoje: “vamos pelo eirado”. E subiram o paralítico, com cama e tudo, até o telhado, cavaram um buraco no teto e desceram o conjunto até Jesus. Muita coragem, ousadia e disposição para ajudar uma pessoa necessitada! Você chegaria a tanto? Do episódio o que me fascina é o carisma do paralítico. De como ele – em meio a uma realidade dolorosa – permaneceu firme, deixando de lado uma realidade de derrota, para seguir em frente. E como conseguiu unir ao seu projeto um grupo compacto de homens dispostos a tudo para ajudá-lo. Ah, o melhor é o resultado. Curado por Jesus, voltou para casa ereto, feliz, levando de volta o leito às costas. Vitória. Pura vitória...